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domingo, 28 de outubro de 2012

SER INDIO EM TEMPOS DE MERCADORIA

"O que espanta, desta vez, é que os próprios Guarani-Kaiowá tenham pedido ao seu inimigo mais ou menos declarado – esta coisa que insistimos em tratar como “civilização” – que seja mais sincero. Sim, mais sincero e diga claramente que o índio não interessa, não se encaixa no modo de vida a que todos, sem privilégios (ouçam o eco iluminista...), estamos condenados."

Tarso de Melo, autor de Direito e ideologia - um estudo a partir da função social da propriedade


Ser índio em tempos de mercadoria
Tarso de Melo*

 A recente divulgação da carta que uma comunidade indígena Guarani-Kaiowá de Dourados (MS) enviou à Justiça Federal pedindo que, uma vez que não lhes é permitido viver da forma que consideram digna, seja logo decretada a morte de toda a comunidade, por cruel que pareça, não deveria causar espanto. Condenados à morte, sejamos sinceros, os índios brasileiros já estão há mais de 500 anos, mas a execução da sentença é lenta, torturante e cínica.
O que espanta, desta vez, é que os próprios Guarani-Kaiowá tenham pedido ao seu inimigo mais ou menos declarado – esta coisa que insistimos em tratar como “civilização” – que seja mais sincero. Sim, mais sincero e diga claramente que o índio não interessa, não se encaixa no modo de vida a que todos, sem privilégios (ouçam o eco iluminista...), estamos condenados.
Aprendemos com Marx que o capital libertou o trabalhador da escravidão à força, típica de formações econômicas pré-capitalistas, para submetê-lo a uma forma diversa de escravidão: o trabalho assalariado, a compra e venda da força de trabalho. (Sim, ainda há trabalho escravo – e ele não é incompatível com o capitalismo. Apenas não pode ser a regra, porque a valorização do capital depende de sua circulação também na forma de salário, o que não impede que um ou outro capitalista faça uso da extração violenta da força de trabalho.)
O trabalho como mercadoria é – em regra, insisto – o único compatível com uma sociedade em que tudo é mercadoria, em que o acesso aos bens indispensáveis à existência passa inescapavelmente pelo mercado: pagou, tem; não pagou, não tem. Ponto final. É óbvio, neste esquema rigoroso de trocas, que não se tolere qualquer exceção à lógica mercantil. Em outras palavras, o que o capitalismo não tolera é a manutenção, em seu mundo, do que não é mercadoria e, ainda por cima, impede o livre desenvolvimento de suas forças.
O que são, afinal, os índios para a ordem capitalista? Um ônus, um entrave, uma aberração, mas que, por não ser conveniente à “civilização” assim declará-los, recebem da nossa Constituição instrumentos para sua proteção que são constantemente “desmoralizados” (e é inevitável usar aqui esta palavra porque a proteção aos índios assume exatamente uma feição moral na ordem jurídica, ao mostrar como somos gratos e responsáveis com nossas, digamos, “origens”), como na decisão da Justiça Federal que exterminou, por enquanto, a paciência dos índios e sua esperança de viver no espaço que a “civilização” reservou àqueles que a antecederam. E sobreviveram à sua afirmação.


A carta à Justiça Federal não deixa dúvida: os Guarani-Kaiowá cansaram de reivindicar o direito de sobreviver como índios e não aceitam viver senão como índios. Não aceitam migrar para o regime do trabalho precário (prestado, no geral, a quem tomou suas terras) ou da mendicância às margens do exuberante mundo das mercadorias. O “bilhete suicida” que essa comunidade manda para nós, não o tomem como chantagem, “drama” etc. É um “basta”, um “chega”, mas principalmente uma prova de que os índios, com sua habitual sabedoria, entenderam melhor do capitalismo e de sua “civilização” do que nós, que nele estamos afundados até o pescoço – e um pouco mais.
Não só sua própria existência, mas a forma como os índios insistem em mantê-la é uma grande afronta ao capital e sua lógica. Vejam o que diz a carta: “Nós comunidades cultivamos o solo, produzimos a alimentação aqui mesmo, plantamos mandioca, milho, batata-doce, banana, mamão, feijão e criamos de animais domésticos, como galinhas e patos. Aqui agora não passamos fome mais. As nossas crianças e adolescentes são bem alimentadas e felizes, não estão pensando em prática de suicídio. Assim, há uma década, nesses 12 hectares estamos tentando sobreviver de formas saudáveis e felizes, resgatando o nosso modo de ser e viver Guarani-Kaiowá, toda a noite participando de nosso ritual religioso jeroky e guachire”. Como assim alimentadas, saudáveis e felizes? Sem ter pago por isso? Este intercâmbio do homem com seus iguais e com a natureza orientado apenas e tão-somente por suas necessidades – do espírito e do estômago – é inadmissível para o capital. Mais ainda: é sobre sua negação que se constituiu a forma como vivemos nos últimos 3 ou 4 séculos.
Os índios, neste contexto, são não apenas supérfluos, mas uma espécie de mau exemplo a ser apagado do horizonte de formas de “ser e viver” à venda – sim, à venda – em nosso tempo. O que será de uma sociedade “sem alternativas” se tolerar uma forma de vida que se nega à troca, ao dinheiro, à concentração da riqueza, ao desperdício? Desta vez, a pedido dos próprios índios, a “civilização” terá oportunidade de declarar o que pensa a este respeito.
A propósito, a Constituição brasileira afirma que “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens” (art. 231).
Se nossas autoridades, que têm sua função justificada por essa mesma Constituição, não se preocuparem em respeitar tais palavras, será muito difícil evitar que se confirmem a tragédia da carta dos índios e o pessimismo das linhas acima. Mas também será cada vez mais difícil – creio e espero – manter os grupos oprimidos e suas reivindicações dentro de comportados limites legais.


*Tarso de Melo (1976) é advogado, mestre e doutor em Direito pela FDUSP, professor da FACAMP e coordenador de pós-graduação da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. É um dos coordenadores da coleção Direitos e Lutas Sociais (Dobra/Outras Expressões).



Há 13 anos a Editora Expressão Popular vem contribuindo para a batalha das ideias e para o fortalecimento da cultura socialista em nossa sociedade. Nossa contribuição só foi possível por contarmos com a solidariedade e o compromisso de mais de 300 companheiros e companheiras que se juntaram a nós e fizeram/fazem parte deste processo através da cessão de direitos autorais, de trabalhos de revisão, editoração, diagramação, divulgação etc. Seguimos firmes nesta batalha e estamos buscando travá-la cada vez co mais afinco e em mais frentes. Neste sentido, estamos inaugurando em nosso site a seção “Batalha das ideias”, na qual publicaremos textos de intervenção e de combate, com vistas a fortalecer a cultura socialista em seu mais amplo espectro. Primaremos por conteúdos que estejam para além tanto das discussões do que Antonio Gramsci bem definiu como “pequena política” quanto dos debates estritamente acadêmicos.O intuito desta iniciativa é apresentar de modo mais dinâmico temas que contribuam para uma melhor compreensão da nossa sociedade hoje com vistas a transformá-la, através de textos que recuperem os aspectos atuais do pensamento clássico da classe trabalhadora.
O terceiro texto da seção é bastante oportuno e atual, tendo em vista a dramática situação de desamparo e injustiça vivida pelos indígenas brasileiros. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

BRASIL : Estudio denuncia producción de soja y de caña en tierras Guaraní-kaiowá





El Centro de Monitoreo de Agrocombustibles (CMA) de la ONG Reporter Brasil publicó este miércoles 24 el informe "En tierras ajenas – La producción de soja y de caña en áreas Guaraní en Mato Grosso do Sul". Basado en datos de órganos públicos y entrevistas in loco en las aldeas, el trabajo buscó mapear la incidencia de productores de estos commodities en seis áreas del Estado: las Tierras Indígenas (TIs) Jatayvary, Guyraroká, Takuara y Panambi-Lagoa Rica (ya declaradas por la Funai), y las áreas Laranjeira Nhanderu y Guaiviry (en estudio por la Funai).

La divulgación del informe ocurre en un momento en que los conflictos de tierra entre indígenas y productores rurales se han endurecido en Mato Grosso do Sul. En el período entre la realización de las investigaciones, en julio de este año y su divulgación, varias reocupaciones de tierra por parte de los Guaraní-Kaiowá llevaron a nuevas confrontaciones y reacciones extremas por parte de hacendados, con ataques con armas a campamentos y amenazas explícitas, como en los casos de las áreas de Arroio Korá y Potrero Guasu, ambas en Paranhos.

En agosto, cerca de 700 kaiowá reocuparon parte del área de Arroio Korá, cuya homologación ocurrió en 2009, pero fue cuestionada en la Justicia por los hacendados (la decisión final sobre el proceso está parada en el Supremo Tribunal Federal). Inmediatamente después de la reocupación, el campamento indígena fue atacado varias veces por pistoleros, ya que el hacendado Luis Carlos da Silva Vieira, conocido como "Lenço Preto”, declaró en entrevista grabada en video, que lideraría "una guerra contra los indígenas". En octubre, la reocupación de la tierra Potrero Guasu también fue objeto de ataque de pistoleros.

Este lunes, 22, el campamento indígena del área de Laranjeira Nhanderu (una de las abordadas en el estudio de Reporter Brasil) fue cercado por hacendados, que de acuerdo con denuncias de los Kaiowá, cerraron el acceso e iniciaron el siembra de soja sobre el camino que lleva al campamento. En la última cosecha, afirman los indios, la fumigación de veneno en el cultivo ya mató a varios animales domésticos e intoxicó a los niños.

Laranjeira Nhanderu y Guaiviry, las dos áreas aún no reconocidas por la Funai abordadas en el informe, son un ejemplo de la dañina morosidad del gobierno en resolver la situación conflictiva y finalizar los procesos de demarcación de tierras indígenas. Guaiviry fue escenario, a finales del año pasado, de uno de los más brutales casos de asesinato de un líder indígena, el cacique Nizio Gomes. En julio, 18 acusados de participar en el delito fueron detenidos por la Policía Federal (datos sobre los hacendados denunciados fueron puestos a disposición en el informe).
Inseguridad jurídica


Por otro lado, interpretaciones desencontradas de la Justicia acerca de los derechos constitucionales de los Guaraní-Kaiowá también ha contribuido a generar un clima de extrema inseguridad entre los indígenas. El 5 de octubre, el Tribunal Regional de la 3ª Región de San Pablo publicó un acuerdo dejando sin efecto una decisión anterior que garantizaba la posesión indígena de la aldea de Paso Piraju, en Dourados, desde 2004 (la Funai y el MPF apelaron, y la ejecución del desalojo sólo se produciría después de la apreciación del mismo).
El 29 de septiembre, la Justicia Federal de Navirai también ordenó el desalojo de la comunidad de Pyelito kue/Mbrakay, en Iguatemí, lo que llevó a los indígenas a anunciar, en una carta, su intención de morir en el área en el caso que la expulsión ocurra. "Sabemos que no tenemos más chance de sobrevivir dignamente aquí en nuestro antiguo territorio, ya sufrimos mucho y estamos todos masacrados y muriendo a ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsados de aquí de la margen del río por la Justicia, sin embargo, no vamos a salir de la margen del río. Como un pueblo nativo e indígena histórico, decidimos meramente ser muertos colectivamente aquí. No tenemos otra opción que ésta, es nuestra última decisión unánime ante el despacho de la Justicia Federal de Navirai-MS”.

El reconocimiento legal, y también del sector productivo, del derecho de las poblaciones Guaraní-Kaiowá a tierras ancestralmente por ellas ocupadas, de las cuales fueron expulsados tanto por las políticas públicas del gobierno como por el avance del agronegocio, es esencial para la supervivencia de estas poblaciones. En este sentido, en el informe se presentan breves historiales de los procesos de reocupación de las áreas estudiadas, se señalan los impactos de la producción de commodities y la lista de propiedades privadas y de productores que existen en el interior de esos territorios.
El mapeo realizado por la ONG Reporter Brasil ayuda en la discusión sobre la corresponsabilidad de la cadena productiva de soja y de caña en los problemas que resultan de la ocupación de tierras Guaraní-Kaiowá por el agronegocio. Es un hecho que dos ingenios del Estado, São Fernando y Raízen ya se comprometieron a no comprar más la producción de caña en áreas indígenas. Tal medida de responsabilidad socioambiental empresarial es un primer paso en el reconocimiento de los derechos indígenas por el sector productivo, siendo urgente su adopción por parte de los demás ingenios sucroalcoholeros, ingenios de biodiesel, traders y cerealistas.
24.10.12 - Brasil
La noticia es de la Agencia Reporter Brasil, por Verena Glass
Traducción: Daniel Barrantes - barrantes.daniel@gmail.com


adital.

foto agregada por ALINE CASTRO